LER O POEMA · GUIA PARA LEITORES BRASILEIROS

Como ler Martín Fierro no original

Quem fala português lê boa parte do espanhol sem esforço, e quem conhece o gauchês do Sul tem ainda mais vantagem. Este guia mostra o que muda na escrita de Hernández, quais palavras enganam e como chegar a cada um dos 46 cantos.

Sobre o texto: os links “Ler no original” levam ao poema em espanhol, com os 7.210 versos de José Hernández. Esta edição não publica uma tradução integral: as traduções brasileiras existentes têm direitos de autor. Os trechos em português nesta página são traduções de estudo da nossa redação.

ASSIM COMEÇA O POEMA

“Aquí me pongo a cantar”

As três primeiras estrofes do canto I. O cantador pede ajuda aos santos antes de contar sua história, como faziam os payadores ao abrir uma apresentação.

Estrofe 1Aquí me pongo a cantarAl compás de la vigüela,Que el hombre que lo desvelaUna pena estraordinariaComo la ave solitariaCon el cantar se consuela.
Tradução de estudo

Aqui começo a cantar ao compasso da viola, porque o homem a quem tira o sono uma dor fora do comum, como a ave solitária, se consola cantando.

vigüela
viola, violão (vihuela)
desvela
tira o sono
estraordinaria
extraordinária
Estrofe 2Pido a los Santos del CieloQue ayuden mi pensamiento;Les pido en este momentoQue voy a cantar mi historiaMe refresquen la memoriaY aclaren mi entendimiento.
Tradução de estudo

Peço aos santos do céu que ajudem o meu pensamento; peço, neste momento em que vou cantar a minha história, que me refresquem a memória e clareiem o meu entendimento.

Estrofe 3Vengan Santos milagrosos,Vengan todos en mi ayuda,Que la lengua se me añudaY se me turba la vista;Pido a Dios que me asistaEn una ocasión tan ruda.
Tradução de estudo

Venham, santos milagrosos, venham todos me ajudar, que a língua se me enrola e a vista se me turva; peço a Deus que me assista numa ocasião tão dura.

se me añuda
se enrola, dá um nó
ruda
dura, difícil

Continuar o canto I no original →

O espanhol do campo: seis pistas

Hernández escreve como fala o gaúcho da província de Buenos Aires. A grafia parece estranha, mas segue regras simples. Leia em voz alta: quase sempre o som revela a palavra.

No poemaEspanhol padrãoEm português
güeno, güen, gúenasbueno, buenasbom, boas. O “bu” do campo soa “gü”.
juí, juego, ajuerafui, fuego, afuerafui, fogo, fora. O “f” vira um “j” aspirado.
naides, ansí, ansinanadie, asíninguém, assim.
dende, pa, andedesde, para, dondedesde, para, onde.
sentao, desgraciaosentado, desgraciadosentado, desgraçado. O “d” entre vogais some, como na fala.
estraño, esperenciaextraño, experienciaestranho, experiência.

Palavras que enganam e palavras irmãs

Algumas palavras parecem portuguesas e não são; outras são as mesmas do gauchês riograndense.

rato
um momento, um tempinho (não o animal)
pelear
brigar, “peleiar”
china
a companheira, a mulher do gaúcho, como no gauchês
pago
a terra natal, a querência, como no Sul
flete, pingo
o cavalo bom, de estimação
facón
facão, a faca grande do gaúcho
pulpería
venda de campanha, bolicho
picardía
malandragem, esperteza (não “picardia” brincalhona)

Mais sobre essa ponte entre o Prata e o Sul do Brasil em Chimarrão: a erva que une o Pampa.

Primeira parte · El gaucho Martín Fierro (1872)

Fierro canta a vida feliz no rancho, a leva forçada para a fronteira, a deserção, a vida de fugitivo e a amizade com o sargento Cruz. No fim, os dois cruzam a fronteira para viver entre os índios.

Segunda parte · La vuelta de Martín Fierro (1879)

Fierro volta, reencontra os filhos e conhece o filho de Cruz. Cada um conta sua história; há o velho Vizcacha, a payada com o Moreno e, no canto XXXII, os conselhos aos filhos.

Comece pelo canto XXXII: os conselhos aos filhos, com tradução de estudo estrofe por estrofe.

Martín Fierro em português

O português é a língua com mais traduções do poema: sete, seis delas brasileiras. A primeira tradução completa é a de João Otávio Nogueira Leiria, publicada em Porto Alegre no centenário do poema, em 1972. Há também a versão de Walmir Ayala (Ediouro) e a de Leopoldo Jobim, só da primeira parte, além de trechos traduzidos por Cecília Meireles e Josué Montello.

Se você tem uma dessas edições em casa, use-a ao lado do original: esta edição foi pensada para isso.

Fonte: Tiago Pedruzzi, “Dos traducciones brasileñas de Martín Fierro”, Caderno de Letras (UFPel), n. 30, 2018.

Como citar um trecho

Indique o autor, o título original da parte, o ano, o canto e a estrofe, por exemplo: Hernández, La vuelta de Martín Fierro (1879), canto XXXII, estrofe 1160. Cada estrofe do leitor tem um endereço próprio que pode ser copiado. As traduções de estudo desta edição podem ser citadas como “tradução de estudo, MARTINFIERRO.ORG”.