REVISTA CULTURAL · O MUNDO DO GAÚCHO
Chimarrão: a erva que une o Pampa
Do Rio Grande do Sul a Buenos Aires, a mesma cuia passa de mão em mão. A história do chimarrão começa com os guaranis, atravessa as missões jesuíticas e os ervais do Paraná e chega aos versos de Martín Fierro, onde o mate amargo ainda se chama cimarrón.

Uma bebida, muitas fronteiras
No Rio Grande do Sul se diz chimarrão; em Buenos Aires e Montevidéu, mate; no Paraguai, quando a água é fria, tereré. Os nomes mudam, mas o gesto é o mesmo de um lado e do outro da fronteira: a erva na cuia, a água quente, a bomba que passa de mão em mão.
O Pampa não respeita linhas de mapa. A mesma planície se estende pelo sul do Brasil, pelo Uruguai e pela província de Buenos Aires, e nela nasceu um mesmo tipo humano, o gaúcho (gaucho, em espanhol), com o mesmo cavalo, o mesmo poncho e a mesma cuia. É por isso que o leitor gaúcho reconhece tanto do mundo de Martín Fierro.
Antes das fronteiras: a erva dos guaranis
A erva-mate (Ilex paraguariensis) é uma árvore nativa das matas do sul da América do Sul: Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, leste do Paraguai e a província argentina de Misiones. Não tem parentesco com o chá-preto ou o chá-verde, que vêm de outra planta.
Muito antes de existirem Brasil, Argentina ou Uruguai, os povos guaranis já colhiam e consumiam as folhas, que chamavam de ka’a (erva, planta). O costume é, portanto, indígena na origem. Nem o gaúcho nem os Estados nacionais o inventaram: eles o herdaram.
As missões jesuíticas e os Sete Povos
Nos séculos XVII e XVIII, os padres jesuítas organizaram reduções com os guaranis numa região que hoje se divide entre Argentina, Paraguai e Brasil. Ali a erva deixou de ser apenas colhida no mato e passou a ser cultivada em ervais, o que a transformou em produto de comércio em todo o Prata.
Sete dessas reduções ficavam a leste do rio Uruguai, no atual Rio Grande do Sul: os Sete Povos das Missões. As ruínas de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, são Patrimônio Mundial da UNESCO junto com as missões guaranis da Argentina. A roda de chimarrão gaúcha tem raízes nesse encontro entre a erva guarani e a vida das estâncias.
O ciclo da erva-mate no Paraná
No século XIX, a erva-mate foi uma das grandes riquezas do sul do Brasil. No Paraná, os engenhos de beneficiamento movimentaram a economia de Curitiba e de cidades do planalto, e boa parte da produção seguia para os portos e para os mercados de Buenos Aires e Montevidéu.
Ou seja: o mate que Martín Fierro tomava num rancho da província de Buenos Aires podia muito bem ter vindo de ervais brasileiros ou paraguaios. A cuia sempre foi uma bebida de fronteira.
O chimarrão: o jeito gaúcho
O chimarrão gaúcho usa erva verde, moída bem fina e com pouco palo, o que dá a cor viva e o pó característico. A cuia costuma ser grande, feita de porongo, e a água vem da chaleira (hoje, muitas vezes, da térmica), quente mas sem ferver. No Uruguai e na Argentina, em geral, a erva é mais grossa e envelhecida, e a cuia, menor.
Na roda, quem ceva toma o primeiro mate, que é o mais amargo e arruma a erva. Depois a cuia gira sempre na mesma direção, cada um toma até o fim e devolve. Não se mexe na bomba, e dizer “obrigado” quer dizer que você já está satisfeito. São regras de cortesia, não de lei, e variam de casa para casa.
Desde 2003, o chimarrão é por lei a bebida símbolo do Rio Grande do Sul, e o Dia do Chimarrão é comemorado em 24 de abril. A erva-mate, por sua vez, já era a árvore símbolo do estado desde 1980.
De cimarrón a chimarrão
A palavra chimarrão vem do espanhol cimarrón, que quer dizer xucro, selvagem, sem dono: dizia-se do gado e dos cavalos que viviam soltos no campo. Aplicada ao mate, passou a significar o mate amargo, sem açúcar, tomado “ao natural”. No Prata, “cimarrón” continua sendo sinônimo de mate amargo.
Martín Fierro usa a palavra nos dois sentidos: há o “perro cimarrón”, o cachorro sem dono, e há o cimarrão que o gaúcho toma junto ao fogo. Muitas outras palavras fazem o mesmo caminho entre o espanhol do campo e o português do Sul: pago, pingo, china, bagual, guaxo, bolicho, peleia, bombacha. Quem fala gauchês tem meio caminho andado para ler o poema no original.
O mate nos versos de Martín Fierro
O poema de José Hernández não faz uma cena dedicada ao mate, mas a cuia aparece onde aparece a vida cotidiana. Três passagens, no original:
Y sentao junto al jogóna esperar que venga el día,al cimarrón le prendíahasta ponerse rechoncho,mientras su china dormíatapadita con su poncho.É a lembrança do tempo feliz, antes da leva para a fronteira: o gaúcho acorda antes do dia, senta junto ao fogo e toma cimarrão até ficar “rechonchudo”, enquanto a mulher dorme enrolada no poncho. Repare na palavra: cimarrón, o mate amargo, é a mãe do nosso chimarrão.
El mate no se permite;no le permiten hablar;no le permiten cantarpara aliviar su dolor,y hasta el terrible rigorde no dejarlo fumar.O filho mais velho de Fierro conta a vida na penitenciária. Entre os castigos, o primeiro da lista é ficar sem mate: para o homem do campo, perder a cuia é perder a companhia.
Yo no soy cantor ladinoy mi habilidá es muy poca;más cuando cantar me tocame defiendo en el combate,porque soy como los mates:sirvo si me abren la boca.Na payada, o desafio cantado, um dos cantadores se compara à cuia: só serve quando lhe abrem a boca. A imagem só funciona porque todo ouvinte conhecia o gesto de cevar.
Para quem quer ir além, os conselhos de Martín Fierro aos filhos trazem o canto XXXII completo, com tradução de estudo em português.
Fontes e método
Este artigo foi escrito para a edição brasileira a partir do guia cultural da edição espanhola, com dados específicos do sul do Brasil. Distinguimos sempre os fatos históricos, as representações literárias e as ilustrações modernas. Os versos vêm do texto original de Hernández usado em todo o site.
- Rio Grande do Sul, Lei nº 11.929, de 20 de junho de 2003 (chimarrão como bebida símbolo; Dia do Chimarrão), via MTG
- UNESCO: Missões jesuíticas dos guaranis (São Miguel das Missões e missões argentinas)
- Royal Botanic Gardens, Kew: Ilex paraguariensis (distribuição nativa)
- Argentina.gob.ar: o mate e sua história botânica e guarani (em espanhol)